HOMEM X CHRONOS

Em tempos de UFC, com batalhas titânicas, é impossível não acompanhar a festa das arenas. Quem não rangia os dentes a cada esquiva do Anderson Silva, ou contraia o punho ao ver os socos do Júnior Cigano?

Nós somos fãs de lutas. Isso nos acompanha desde os primórdios existenciais. Sempre lutamos e até a presença de inimigos nos fez crescer.

Mas, nenhuma luta é mais conhecida que a do Homem X Chronos. De todos os adversários do homem o mais atroz é o deus Chronos – o Tempo. Deus imprescindível, porém implacável; presente em tudo, mas não para todos. É dele o dom de tudo saber e na boa e velha arte da guerra “aquele que conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas”.

Chronos conhece bem seu rival e sabe que ele se ilude, que nunca será divino pois seu sangue é vermelho, cor da tragédia… não azul, nem dourado.

Reza a lenda, que certa vez o homem quis desafiar Chronos. Logo o pobre homem, simples número de registro. Queria ser deus! Queria fazer tudo! Queria se valer dos dons da onipresença, da onisciência e da onipotência – esse último tido como o coelho da cartola, a fórmula da coca-cola, o “Hadouken” do Street Fighter.

O homem, ansiosamente, golpeou primeiro. Bateu duas vezes o cartão de ponto na firma, realizou operações aritméticas, foi ao banco, amou a mulher, educou seus filhos, passeou com o cachorro, comprou no supermercado, estudou, planejou o futuro, leu seus e-mails, orou e, por fim, pensou. Tudo no mesmo dia!

Chronos atordoou-se e indagou: “o homem multiplicou-se?”

Contudo o homem deixou aberta a guarda e o poderoso deus do tempo não perdoaria tal falha. Desregulou-lhe o relógio do coração, que mudou o tictaquear conhecido, descompassando-se. Então ironizou: “esqueceu-se de se manter saudável. Sucumbiu-se à ansiedade. Estressou-se. Não se aliou a mim, por isso sempre lhe derrotarei.”

O homem, enquanto caia rumo ao sono eterno, viu sua vida inteira passar diante de seus olhos, anos e anos, como num flash. Atingiu assim seu objetivo?

Chronos não mais existiu àquele homem.

A narrativa acima só teria um final feliz se o homem se valesse do tempo como seu aliado, entretanto este não lhe permite mais tal aliança.

Atualmente, a maioria dos problemas ligados ao estresse reside na falta de tempo. O trabalho tem exigido dedicação direta, indireta e global. Estamos interligados em redes, portamos celulares funcionais, desconhecemos o fim da jornada de trabalho, trabalhamos todo o tempo. Não nos desligamos.

Pesquisas da ISMA-BR (International Stress Management Association no Brasil) apontaram que apenas 24% dos brasileiros se sentem realizados profissionalmente e que 70% da população brasileira economicamente ativa está estressada. Estimadamente o prejuízo suportado pelo PIB do país é de 3,5%, haja vista faltas, licenças médicas, gastos com saúde, e o presenteísmo (que se dá quando a pessoa está fisicamente no local, mas alheia ao que faz). Segundo a Previdência Social o afastamento por estresse cresceu 28% no primeiro semestre desse ano em relação ao mesmo período de 2010.

O estresse profissional está, quase sempre, aliado ao fato dos trabalhadores terem princípios diferentes dos seguidos pela empresa, suportarem sobrecarga de trabalho, estarem descontentes com a remuneração percebida ou por estarem desempenhando atividades fora da sua área de atuação. Todo esse contexto contribui para o que “o trabalhador só se sinta junto a si fora do trabalho e fora de si no trabalho. Sente-se em casa quando não trabalha e quando trabalha não se sente em casa. O seu trabalho não é, portanto, voluntário, mas compulsório, trabalho forçado. Por conseguinte, não é a satisfação de uma necessidade, mas somente um meio para satisfazer necessidades fora dele”, como disse Karl Marx no passado.

Talvez o amor fosse a saída. Afinal, “o amor tudo constrói”, “somente o amor cura a ferida”. Procure amar aquilo que fizer. Procure realização profissional, não salário. Procure uma profissão, não um emprego. Procure-se. Encontre-se. E não se esqueça: cuide de sua saúde física e mental.

Afinal, Chronos não perdoa.

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