Existe vida além dos riscos.

“Se alguma coisa pode dar errado, com certeza dará”. Este enunciado é bastante conhecido, principalmente entre os pessimistas.
Essa premissa surgiu com os estudos do engenheiro espacial capitão Edward A. Murphy, nos idos de 1949. Murphy pretendia medir o impacto da gravidade nos seres humanos e saber quantos “G” (unidades de força gravitacional) um piloto suportava em caso de acidente.
Tal experiência consistia na colocação de 16 acelerômetros em várias partes do corpo de uma pessoa (cobaia), o que foi realizado. Todavia, os contadores foram afixados de forma errada, impossibilitando a realização da experiência.
O capitão Edward Murphy, irritado pelo erro acontecido, teria dito que “se existirem duas ou mais formas de se fazer uma tarefa, e uma delas puder provocar um erro, alguém irá adotá-la”.
O mantra pessimista vem acompanhando os segmentos desmotivados da sociedade e adotou diversas vertentes, até a chegada da sua grande máxima, base para todas as demais: “se existir alguma chance de algo dar errado, certamente dará”. Outras versões muito conhecidas da mesma diretriz: “a fila ao lado sempre anda mais rápido”; “o pão sempre cai com o lado da manteiga para baixo”; “você sempre acha algo no último lugar que procura”.
A lei de Murphy não trata de probabilidades matemáticas, mas do reconhecimento da máxima sobre o mau humor do Universo; sobre a sensação de que o Universo “quer” a todo custo que tudo dê errado.
Além disso, embora inadequada, é comum a confusão entre a Lei de Murphy e a Teoria do Caos.
A Teoria do Caos está pautada no efeito dominó que foi iniciado por uma ação acarretando inúmeros resultados. Pelo seu advento se abrem inúmeras possibilidades a partir de um único feito. Estas possibilidades podem ser positivas, ou negativas.
A Lei de Murphy está ancorada na negatividade do dia a dia, que, por sua vez, baseia-se na falha, no erro.
Embora Murphy tenha cedido o nome para esse alinhamento ideológico, existiram outras expressões semelhantes anteriormente ao seu advento.
Em 1877, Alfred Holt, ao se pronunciar sobre navios a vapor durante uma reunião de engenheiros civis em Londres, disse o seguinte: “verifica-se que qualquer coisa que pode dar errado no mar geralmente dá errado mais cedo ou mais tarde”.
Em 1908, em artigo da revista The Magic Circular, um boletim direcionado para mágicos, o ilusionista inglês Nevile Maskelyne escreve o seguinte: “é uma experiência comum a todos os homens descobrir que, em uma ocasião especial, tal qual a produção de um efeito mágico pela primeira vez em público, tudo o que pode dar errado dará errado”.
Essa forma de ver o mundo pode ser interpretada como uma forma negativa de encarar os fatos cotidianos. Noutro viés, ela também afirma, mesmo indiretamente, que erros existem e podem acontecer se não forem detectados a tempo e se não forem tomados os devidos cuidados necessários para evitá-los, ou minimizá-los, antes de se iniciar um projeto.
Ora, se existem duas opções a escolher, entendendo-se que a chance de cada uma delas se concretizar é de 50%, é preciso se cercar de cuidados para que a escolha ideal alcance êxito.
Refletindo sobre o trânsito, por exemplo, é possível concluir que, pelo menos dois fatores nos direcionam na escolha da pista mais lenta.
O primeiro fator se refere a nossa percepção cognitiva. Para o nosso cérebro, a sensação de sermos ultrapassados é mais densa e representativa do que a de ultrapassarmos outros veículos. Portanto, mesmo se estivéssemos trafegando pela via mais rápida, dificilmente perceberíamos isso.
O segundo fator cinge-se em pura questão objetiva de probabilidade. Se estivermos trafegando em uma pista tripla, a chance de nos encontrarmos numa pista mais lenta é de 66,66%. É a constante alternância de pistas, fruto da análise continuada do motorista, que favorecerá uma variação de posição, alternando nas pistas, de mais lenta para mais rápida.
A boa e velha dualidade da vida nos impõe o pensamento de que sempre há, pelo menos, dois caminhos a seguir; duas opções; duas escolhas. A falha é, portanto, filha da insegurança, seja ela sistêmica ou pontual, posto que “o acidente acontece onde a prevenção falha”. Já o sucesso é fruto do planejamento realístico, da análise pormenorizada das variáveis factuais, com implemento das medidas necessárias para o seu alcance.
Desta forma, a opção pela segurança deve estar concebida no planejamento, desde o seu início, sendo ela meta a ser buscada e não bônus por mérito alcançado.
O planejamento de segurança deve compreender o plano para dar certo, ou seja, a previsão da realização de todas as ações de forma correta e preventiva, mantendo sua essência proativa; e também tem que abarcar o plano para o caso de não dar certo, que precisa contemplar as medidas necessárias de serem tomadas no caso de falhas, ou acidentes, e que possui características reativas e mitigadoras.
A possibilidade do erro abre margem para a ampliação do plano de segurança. Noutro viés, a inconsistência avaliativa, mensurada de forma ineficiente em relação ao apanhado factual, eleva as condições de incertezas a ponto de se tornarem barreiras à evolução humana em todos os seus patamares.
Desta forma podemos dizer que a Lei de Murphy oferece efeitos positivos. Afinal, como afirma Nassim Nicholas Taleb na obra “Arriscando a Própria Pele (Skin in The Game)”:“se você quer o lado positivo das coisas, você também precisa estar hábil para ver o lado negativo delas”.