Existe vida além dos riscos.
Se tú não sabes mais
em quem devotas confiança,
paciência! É natural o bifurcar.
Olha de onde vens e para onde vais
e, então, assim, avança.
Lembre-se de quem vem contigo,
se também é seu amigo,
se te ofereces a mão,
ou se não tem outra opção
a não lhe ser o umbigo.
É possível que seu repouso
esteja além mar, ou do horizonte,
ou que esteja atrás do monte.
Ali, depois da curva.
E se a vista está turva
nunca estará sua alma,
pois não é a palma que acalma
nem o vinho da uva, nem o caminho da chuva.
Quem era Hera, já era
não é, e nem lhe pode ser mais.
O veneno é a cura da azia
É Eno, dentre outros sais.
Assim, acolha as pedras, todas elas,
que encontrares no seu pesado caminho
e ajunta-lhes num belo vaso,
num desses que, por acaso,
guardas ao longe
e sem olhar os espinhos
plante uma rosa,
como quem batiza um monge.
Escolhe uma dessas filhas da boa semente,
qual cativas no íntimo do seu coração.
Põe na marca, no meio das pedras,
o fruto da sua oração.
Aduba-lhe, cuida-lhe e
lhe mostra o caminho do sol
não vos cabe agruras, máculas,
nem lhe manchar o lençol.
Pelo contrário,
por onde fores,
de quando em quando,
prepara a cama da rosa.
Semeie toda a estrada,
mesmo que pesada for tua cultura,
pois, no fim,
não mostraste só a mim
a sua lisura.
E muito além,
florido estará o caminho das pedras e das Heras,
e quem pensava que colecionavas tropeços
não sabia que era só o começo,
pois, na verdade, tú, jardineira já eras.